A luta é urbana, o caminho esta ainda sendo construído.

   Ana Fani Alessandri Carlos   

             O urbano é agora a escala do mundo. O que esta posto para o debate como produto da contestação,  como momento em que a luta se impõe como necessidade e desejo (entrando em conflito com a passividade do cotidiano), numa escala mais ampla, é o "direito à cidade", como direito à vida urbana em sua plenitude. E só o debate e a reflexão permitirão pensar os passos seguintes.

                O corpo tomando os espaços construídos para os carros vão revelando os conflitos que estão na base de nossa sociedade. Algumas questões aparecem no horizonte: a) o voto na urna tem justificado, que depois de eleito, o político e o partido podem fazer o que quiserem e como quiserem.  Os partidos políticos fazem alianças sem se preocupar com o que a sociedade pensa, mas em "nome dela". Um minúsculo exemplo revela o modo como se faz política no Brasil: o vice-governador de São Paulo é ministro e não vê nenhum problema nesta atitude, e todos acham normal e pior, acham que é tema para o debate! Seria irônico se não fosse trágico! O exercício de  nossa democracia precisa ser repensada;  b) as ruas - espaços públicos por excelência, mas pensado como lugar dos carros - apontam  indignação e descontentamento com a vida na metrópole e o modo como se constrói o espaço urbano separando moradia do trabalho e lazer. A proposta do "Arco do Futuro" não vai  resolver este problema. Os frequentes processo de valorização do espaço urbano tem afastado os pobres para  periferias cada vez mais distantes,  situação que o projeto vai aprofundar; c) o transporte é apenas um dos direitos do cidadão. Ele precisa morar dignamente, ter acesso a saúde, alimentação. Ele precisa de educação de qualidade e cultura, ao lazer. E acesso ao centro e a centralidade metropolitana! Diretos de ir e vir, num transporte coletivo digno e ubíquo na metrópole que garanta, em pouco tempo, o direito de acesso à vida na metrópole e com horários estendidos. Não se diminui o preço da passagem de ônibus aumentando o IPTU, mas repensando o orçamento e suas prioridades, o modo com o ele se constrói  as alianças que privilegiam os setores imobiliários, as empresas de  transporte, as grandes construtoras, o modo como se abrem os cofres públicos criando infraestrutura e incentivos para a iniciativa privada, sob o discurso de que geram empregos; d) o aprofundamento da  segregação como característica de uma metrópole que se constitui  como negócio passível de ser lida  pela valorização advinda da construção de infraestrutura que abre espaço para novos negócios privados em detrimento dos moradores dos lugares atingidos, posto que expulsam a "população não compatível" (para utilizar um termo corrente no planejamento) nas das áreas renovadas, etc..

                A cidadania não tem por conteúdo a qualidade de vida, nem sem reduz à posse de  bens de consumo. As manifestações urbanas, por excelência, apontam os problemas vividos e, porque urbanas, reúnem uma gama de situações que iluminam os níveis da realização da vida e da necessidade de participação, de forma mais ativa, nas decisões. Portanto o direito de ser ouvido e de participar dos rumos da sociedade como um todo.

Numa sociedade urbana a luta realiza-se  de outra forma e o modo de lidar com ela é não criminalizá-la nem subestimá-la. Estamos adentrando numa nova forma de sociedade que exige uma novo modo de diálogo que é o que esta sendo construído, agora, nas ruas.

 

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